segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Dois caras

E então, num final de semana, calhou de um cara conhecer e se apaixonar profundamente por duas meninas totalmente diferentes entre si.

Uma das meninas era sulista, tinha nascido numa cidadezinha fria, quase dentro da Argentina. Tinha os cabelos vermelhos, olhos verdes reluzentes, a pele coalhada de pintinhas e a boca em formato de coração.
Era romântica mas tinha uma postura reservada e pragmática. Quando foi embora, deixou na mesa dele um bilhete com seu email pessoal porque achou que seria invasiva demais se deixasse o número do telefone.
De certa forma o cara sentia que ela lhe fazia lembrar de sua primeira esposa, mas de um jeito bacana.
Quando acordaram ela pediu pra ele colocar Madonna na vitrola.
Comeram omeletes no café da manhã e passaram o dia todo nus, na cama, conversando sobre arte, sobre misticismo, filosofia celta, feminismo e bordado.
Ela falou sobre quanto admirava seus pais e sobre como era morar em São Paulo. Falou sobre o emprego e sobre a gatinha com quem dividia apartamento, um bichano com um nome tão bobo e pueril que o cara sentiu ternura imediata.
Eles tentaram se encontrar outras vezes, mas os compromissos não coincidiam e os horários livres também não.
Finalmente almoçaram, um domingo, na Liberdade e foram pra casa dela. Não rolou.
Ela estava afim e ele estava afim, mas foi meio tosco, meio cômico, bastante constrangedor. E a oportunidade que ele esperava de encontra-la de novo, de mudar a imagem, de sanar os equívocos, nunca veio. Ela adoeceu e ligou insinuando que queria os cuidados dele. O cara não teve como ir e acabou nunca indo.
Ela achou que ele era um babaca. Bonitinho, articulado, mas babaca. Achou que ele era gay ou imaturo ou romântico demais. Demais, de um jeito que não rola.

A outra menina era morena de cabelos cacheados e irrefreáveis. Tinha vindo de Recife e falava muito e muito bem, com uma vozinha fina, meiga e doce, de sotaque sutil e um “R” que quase sumia no meio das palavras.
Tinhas tatuagens imensas pelas costas,  a pele corada, olhos cor de âmbar e uma coleção de Daddy Issues.
A principio ela pensou que o cara fosse gay. Era muito bem vestido pra não ser gay.
Eles beberam. Beberam muito, até quase o dia nascer.  Ela disse logo que tinha gostado dele. Falaram sobre a infância, sobre família, sobre livros, sobre filhos, sobre fetiche, horóscopo, tatuagem, depressão e só depois – bem depois – atracaram-se, furiosamente, no sofá.
Trocaram fotos nus pela internet e viraram noites conversando e se pegando, bebendo, fumando e se pegando de novo.
Olhando pra ela, o cara se lembrava um pouco de casa, do povo de sua terra, das meninas por quem tinha sido apaixonado na infância.
Comeram sanduíche de prosciutto, risoto apimentado de camarão e – no fim – foram cada um pra um canto. Querendo estar juntos.

Ela achou que ele seria seu protetor, um porto seguro, um peito são sobre o qual repousar. No fim, concluiu que ele era um babaca. Hetero, viril, pragmático, mas calculista demais. Demais de um jeito que não rola.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

70 anos

Quando eu tinha 18 anos, estava noivo e prestes e me casar. Já contei essa história. Os mais velhos vinham me aconselhar a não fazer isso. Diziam “Vá aproveitar a vida, conhecer outras pessoas.” E eu respondia “Não quero conhecer outras pessoas, eu já aproveito bastante a vida do lado da minha noiva.”
Mas por conta de uma série de coisas, de uma quantidade imensa de acontecimentos aleatórios, meio que por acaso acabei seguindo os conselhos dos mais velhos.
Conheci outras pessoas, não me casei aos 18 mas me casei aos 22 (com uma outra namorada) e depois me casei de novo aos 27. Aos 30 já estava solteiro mais uma vez e conhecendo mais pessoas e “aproveitando a vida”.
Não sinto o menor arrependimento por nada que tenha feito ou deixado de fazer. Sério.
Mas há uma coisa que clama veementemente por ser dita:
Conhecer pessoas e aproveitar a vida, assim como os mais velhos diziam é a maior e mais absurda balela.
É bem verdade que conheci mais de uma centena de pessoas. No fim das contas tive casos, romances, noites de sexo com tanta gente que nem consigo contar. Me apaixonei profundamente por algumas, me apaixonei parcialmente por outras, sofri e amei bem poucas. Todas elas – isso é verdade – deixaram alguma marca na minha alma e na minha índole. Todas elas me afetaram nalgum nível (seja lá qual for).
Mas se me perguntarem se sou mais feliz agora do que diante da perspectiva de casamento aos 18, eu talvez diga que não. Se me perguntarem se eu considero indispensável na minha biografia os anos em que estive “aproveitando a vida”, talvez eu responda que tanto faz.
Não foi fundamental. Minhas experiências não foram insubstituíveis. Pessoas são pessoas. Ninguém é um acontecimento extraordinário. Ou, pelo menos, nem tanto assim.
Mesmo as pessoas que me marcaram mais, passaram. Marcaram, inspiraram posts no blog, inspiraram noites e noites de filosofia, justificaram o dinheiro que gasto mensalmente com a psicóloga, mas passaram. E vão passar. E vão continuar passando.
Minha vida não é mais especial porque não casei com minha primeira namorada. E tenho quase certeza de que não seria menos aventuresca se eu tivesse me casado.
Eu converso com pessoas mais velhas que queriam não ter casado, conheço pessoas jovens ansiosas por encontrar alguém com quem casar, gente que namora há anos desejando a possibilidade de trepar com outras pessoas e - poutz - isso faz mesmo alguma diferença?
Por mais única que cada pessoa seja, elas não são tão diferentes assim. Conhecer uma multidão, no fim, é mais uma "dispersão" do que uma "aglomeração".





Eu tenho tantas histórias que renderiam uma dezena de livros. Uma dezena de livros de qualidade questionável. Uma quantidade imensa de histórias que vão morrer comigo. Uma imensidão de histórias que não vão fazer a menor diferença pros meus netos. Histórias que eu terei esquecido aos 70 anos.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

De madrugada


Às vezes acordo de madrugada e me pego pensando nela. E perco o sono.
Penso em tudo o que poderia ter sido e não foi. Nos planos que meu romantismo precipitado começaram a traçar, as brincadeiras que a gente fazia, os segredos que compartilhávamos. Na efemeridade das coisas e sobre como tudo passou tão rápido quanto veio.

Às vezes eu acordo de madrugada e penso em mandar um email, pedir desculpas, chamar de volta, seduzir outra vez. Mas as coisas são como são e têm um tempo certo pra acontecer. Algumas histórias têm uma chance só. E então tudo muda tão rápido que fica impossível voltar atrás e tentar restabelecer o que era. Ou estabelecer algo novo.

Às vezes acordo de madrugada torcendo pra acordar de manhã e descobrir que o houve de errado foi um daqueles sonhos neuróticos que a gente tem quando se sente inseguro.

Às vezes eu acordo de madrugada e viro de lado, abraçando o travesseiro e tentando sentir nele algum resquício do perfume do cabelo dela.

domingo, 29 de setembro de 2013

Simples assim

“Então é isso?” Ela disse: “Depois de tudo, depois de ter dito que me amava, depois de mandar sms bêbado, no meio da madrugada, é assim que vai terminar? Você diz que não quer me ver nunca mais e acabou? Simples assim?”

Não era – em absoluto – simples assim. Não era uma decisão tão fácil de se tomar nem uma ação tão fácil de se executar. Também não tinha sido, a despeito do que pudesse parecer, uma decisão tomada de última hora. Era uma decisão pensada, ponderada, avaliada e até adiada. Adiada uma centena de vezes.
Mesmo que se ame alguém, mesmo que se goste e se queira a presença dessa pessoa, mesmo tendo no histórico uma série de situações e de lembranças deliciosas, de acontecimentos únicos e sensações inesquecíveis, mesmo nesse caso, às vezes, convém parar e refletir se aquilo que está sendo construído, se a relação que está sendo desenvolvida é realmente boa.
Às vezes não é.
Às vezes tudo é tão errado, tão cheio de vícios, tão mal arranjado que não haja qualquer possibilidade de funcionar. Que o tempo, que a insistência na manutenção, que a persistência na continuidade só causem um desastre ainda maior e o dano seja irreparável.
Às vezes, por mais que o coração queira e a alma anseie, o melhor talvez seja cortar os laços. Simplesmente desistir.

Não era fácil. Por dentro eu sentia o ímpeto de abraça-la, de toma-la no peito, enxugar suas lágrimas, beijar sua boca e repetir que a amava, que a queria agora e sempre, que tínhamos de ficar juntos, que tudo ficaria bem, que eu cuidaria dela, que eu sabia exatamente qual era o caminho que tínhamos de tomar pra estar juntos, tendo superado as intempéries. Que era possível somar forças pra que seus medos, aos poucos, fossem superados, pra que suas desconfianças fossem esquecidas, pra que tudo tivesse um final feliz. Mas era mentira.
Eu tinha feito o que sabia, tinha tentado o que me cabia, o que considerava ser da minha alçada, da minha parcela de responsabilidade, e não tinha funcionado.
Minha experiência, meu auto controle, minha sinceridade, minha honestidade, nada tinha surtido efeito.
O que ela queria – no fundo -  era que eu fosse capaz de corresponder exatamente, e minuciosamente, às expectativas que tinha criado dentro de si, e isso era impossível.
De fato, em vez de ser capaz de conter suas inseguranças, suas neuroses, eu é que comecei a ser afetado e desestabilizado por elas. Por mais que a amasse (e amava), naquele momento parecia ser imprescindível amar mais a mim mesmo. E me poupar.

Por dentro eu sentia o peito se despedaçando e a alma se contorcendo em tristeza, solidão e remorso. Por dentro eu queria ser aventureiro e apostar nela meu resto de sanidade.
Mas não era tão simples assim.

Por fora, eu olhei friamente em seus olhos marejados e terminei tudo, dizendo com desdém: “É... É simples assim.”

domingo, 11 de agosto de 2013

Madri

Nem toda história de amor acaba mal. Nem toda história de amor acaba.

Eu conheci essa menina numa noite em que tinha saído pra encontrar outra menina, que não apareceu. Nos conhecemos na fila do banheiro e mais tarde, no auge da festa, dançamos juntos, conversamos, rimos, bebemos e nos beijamos.
Ela estava de malas prontas pra Madri, disse que se sentia sufocada em São Paulo, disse uma porção de outras coisas que não lembro porque eu estava muito bêbado e disse que gostava de mim.
Dias depois nos encontramos de madrugada, sentamos sozinhos num dos bancos da Roosevelt, bebemos cerveja e conversamos por horas.
Fomos pra casa dela, colocamos Nina Simone e conversamos por mais uma porção de horas.
Eu queria beijá-la, queria mordê-la, queria bebê-la mas também queria lhe escutar falar de si. Queria falar de mim. Queria acelerar aquele processo, gastar todas as fichas, consumi-la completamente antes que o dia amanhecesse e eu tivesse de ir embora e deixa-la ir embora também.
Eu queria que ela mudasse de idéia, que ficasse. Queria que ela fosse e fugisse dessa cidade de merda, mas não queria que fugisse de sob minhas asas. Eu queria entrar no avião com ela.

Eu queria tudo e queria tanto que deitei-a no sofá da sala, a Nina Simone gritando “Feelings”, os dentes dela no meu peito, seus cabelos engastados nos meus dedos, suas pernas em torno das minhas costas e toda a cerveja que tínhamos bebido e tudo o que tínhamos conversado reverberando na minha cabeça que eu já não sabia mais nada, que eu já não distinguia onde acabava meu corpo e onde começava o dela nem quais gritos eram nossos nem quais eram da Nina Simone. Eu queria tudo e queria tanto que naquele instante eu quis de todo coração ter um filho com ela e quis a ponto de vê-la correndo no quintal e rolando na grama com meu filho, sorrindo aquele sorriso imenso e luminoso, aqueles gestos cheios de vida, aquela leveza de quem não se importa com o que não tem importância e só.

Dormimos.

Nem toda história de amor precisa continuar. Só precisa continuar sendo uma história de amor.
No dia seguinte ela foi pra Madri.

domingo, 4 de agosto de 2013

Hoje aconteceu

Poucas sensações no mundo me são tão caras quanto a de estar apaixonado.
Andar pela rua sorrindo pros transeuntes mal-humorados, sentindo-se pisar em nuvens. Deitar na cama pra dormir e se pegar revisando na memória as coisas ditas, os detalhes anatômicos mais charmosos. Acordar na manhã seguinte e escovar os dentes planejando que pretexto inventar pra dar um telefonema, mandar um recado, convidar pra um jantar. Recusar sem remorso um trabalho novo só pra ter tempo de ficar juntos. Passar uma tarde inteira batendo papo sobre as coisas mais variadas, emendando um assunto no outro e no outro e depois voltando ao primeiro assunto sem concluir nada. Projetar futuros possíveis mesmo sabendo que podem não ser possíveis. Querer – sinceramente – saber sobre como foi o dia.
Ficar de mão dada.

Mas apesar do prazer que isso me traz, apesar da necessidade quase física que eu tenho de sentir essas coisas, apesar disso funcionar pra mim meio que como uma droga, a idade me fez seletivo, ranzinza e fechado. É cada vez mais difícil ter essas sensações e é cada vez menos visceral quando acontece.

Hoje – porém – aconteceu.
E mesmo que não se repita pelos próximos dias ou semanas (ou meses ou anos), hoje aconteceu e eu estou pleno, bobo e feliz.

Hoje aconteceu e eu vou dormir pensando nela.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

1202

Eu não estou falando de amor, porque neste momento amor é a última coisa que me importa. Também não estou falando da guria que estava lá porque a guria, quem ela era, o que representava e quais características físicas tinha, são completamente irrelevantes nesse contexto.
Esta história poderia ser contada de uma dezena de formas, sob uma série de ângulos e com uma infinidade de aspectos emocionais e circunstanciais. Agora, só me interessa abordar um desses aspectos. Esta história é sobre uma foda.

Eu tinha reservado a suíte presidencial de um hotel antigo, clássico e absolutamente kitsch do centro da cidade. Era véspera de réveillon, tínhamos tido um ano intenso de todas as formas possíveis e queríamos um fim de ano que coroasse aquilo tudo.
Ela comprou uma garrafa de Jack Daniels e eu gastei uma pequena fortuna em 30 gramas da melhor cocaína que se pudesse conseguir naquela época.

Isso não é um conto de ninar, pelo contrário:

Foram dois dias sem dormir porque naquele momento não estávamos interessados em bem-estar. Foram dois dias sem comer porque nosso foco era sublimar. Foram dois dias sem colocar roupas, usufruindo do corpo um do outro, esquecendo do mundo, desconsiderando o ano porvir e todas as responsabilidades, todos os problemas, todas as consequências e toda a chatice da vida habitual.
O mundo resumia-se àquele quarto de hotel, àquele papel de parede démodé e ao nosso ímpeto de nos consumirmos mutuamente. De esquecer a passagem do tempo e de nos preenchermos um do outro. De mergulhar no corpo com a boca, os dedos, a mão e o braço, de sangrar, de chegar ao limite físico e parar, beber mais um pouco, cheirar mais um teco, discutir assuntos sem qualquer relevância prática e voltar ao corpo, à boca, aos dedos etc.
O mundo resumia-se à ânsia de comprimirem-se as peles, de queimar-se a carne (figurativamente), de gastar todas as possibilidades e chegar quase (quase) a um nirvana qualquer, a uma catarse qualquer que resumisse tudo à simplicidade dos membros, dos lábios, dos peitos. De se reduzir à animalidade, ao primitivo, à irracionalidade, à besta hedonista de cada um de nós, à uma inconsequência primordial e infantil, ao tamanho bobo e ínfimo de quem se esquece de quem é. De quem abdica de si pra ser no outro.


Essa história é sobre aquilo que nunca mais se repetiu. Porque seria impossível de se repetir. Porque o que quer que tenhamos sido ao longo daqueles dois dias, consumiu-se e feneceu na suíte 1202 daquele hotel.